
Por: Luciene Rodrigues Rochael Galvão.
O primeiro grupo ao qual uma pessoa pertence é a família. É na família que cada pessoa adquire os conceitos, hábitos e crenças que vão constituir o alicerce sobre o qual ela se apóia, os conceitos fundamentais sobre o mundo, as relações sociais, a ética, a forma como a sociedade se estrutura.
Segundo Loureiro (2005), a escola pode ser considerada de grande relevância, pela influência que exerce na vida das crianças. Depois da família, ela é um dos mais importantes grupos dos quais a criança participa. A escola consolida e atualiza, na criança, as bases necessárias para a participação na vida social. É na escola que a criança vai incorporar sentimentos de adequação para a participação na sociedade mais ampla.
A escola tem, de certa forma, uma co-participação com a família, na educação das crianças no sentido de que tem a tarefa de cooperar com a família, de dar continuidade à preparação do indivíduo para que ele possa se inserir na sociedade mais ampla de forma satisfatória para si mesmo e para a sociedade na qual participa. Ela representa para a criança a sua pré-estréia em um grupo mais amplo, como sujeito capaz de construir junto com os outros, de criar e, pela sua atuação, de se realizar em uma importante dimensão da vida humana. A escola prepara a criança para sua participação efetiva na estrutura social, por isso não pode estar em oposição à primeira – a família – instituição que fundamentou os valores, crenças e conhecimentos. Se nessa dinâmica, ocorre uma ruptura no processo de socialização e de construção de si e do mundo, a criança não se sente segura, sua concepção de mundo fica fragmentada, dividida entre dois grupos, e ela pode desenvolver sentimentos ambivalentes, pode sentir-se inadequada para a participação na vida social.
É imprescindível que o processo ensino-aprendizagem parta do conhecimento que a criança traz ao chegar à escola. Sua concepção de mundo não deve, sob nenhum pretexto, ser negada, pois menosprezá-la é negá-la como pessoa, apta a participar ativamente da vida escolar. É abalar os alicerces sob os quais ela se apóia e sob os quais se desenvolveu. A criança precisa sentir que é aceito e que pode participar de forma construtiva no contexto escolar. Por meio de um diálogo autêntico, em um processo de aprendizagem que facilite o pensar crítico, a criança pode transformar a curiosidade ingênua em curiosidade epistemológica. Nesta etapa, o que está em jogo é um dos processos cruciais no desenvolvimento psicossocial da criança; é o desenvolvimento e a manutenção de uma identificação positiva com aqueles que personificam o conhecimento, aqueles que sabem as coisas e como fazê-las.
Rogers (1972), faz uma distinção entre o significado das palavras “ensinar” e “educar”. Para ele “ensinar” está relacionado apenas à transmissão de conhecimentos, um processo no qual o educando apenas decora os conteúdos que lhe são transmitidos. “Educar” é uma prática na qual o educador preocupa-se em facilitar o processo de aprendizagem que tenha significado para o aluno, que envolva várias dimensões do ser, facilitando, também o processo de crescimento, de auto-realização. A esse respeito, Rogers escreve:
O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender, que aprendeu como se adaptar e mudar; que se capacitou de que nenhum conhecimento é seguro, que nenhum processo de buscar conhecimento oferece base de segurança. Mutabilidade, dependência de um processo, antes que de um conhecimento estático, eis a única coisa que tem certo sentido como objetivo da educação, no mundo moderno. (ROGERS, 1972, p. 105)
A Educação Humanista, libertadora, tem como objetivo, através do diálogo, fazer o homem um ser da transformação do mundo, o coloca no centro das suas preocupações, a fim de prepará-lo para caminhar ao encontro dos outros, do mundo e a si mesmo. Desse encontro, retornar aos outros, do mundo e de si mesmo, sabendo-se transformado e transformando e que, portanto, viver como pessoa é saber-se sempre nesse processo. Ou seja, propõe-se a fazer do homem uma Pessoa, cujo conceito de Pessoa é saber-se devir, inacabado, incompleto e construtor de si mesmo e de seu futuro.
É neste contexto que se deve pensar a educação infantil: dentro de uma realidade concreta e palpável e não em termos de uma sociedade ideal. Baseada numa proposta curricular que leva em consideração a vida da criança na sociedade e tem como objetivo encontrar formas de não negar à criança o seu direito de descobrir, explorar, ser livre e criativa.
Contudo, o modelo de homem para a sociedade atual, cuja característica básica é a mudança cada vez mais acelerada, é que este seja criativo e inovador no campo do conhecimento e não repetidor, da ciência do passado. Sem dúvida, nossa cultura necessita de indivíduos capazes de efetiva mudança. Mas como poderia a escola preparar a criança para tal exigência se sabemos, o quão devagar a educação as incorporará, tentando tornar-se, portanto, cada vez, mais um ambiente artificial e distante do mundo da criança? Precisamos de uma educação que proporcione oportunidades e lhes permita escolher vias próprias e direção pessoal de aprendizagem. Para tanto, precisa-se de uma proposta de currículo centrado na criança, na sua formação, nas suas reais necessidades.
Referências Bibliográficas:
LOUREIRO, Stefânie A. G. Alfabetização: uma perspectiva humanista e progressiva. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
QUELUZ, Ana G. A pré-escola centrada na criança: uma influência de Carl Rogers. São Paulo: Pioneira, 1984.
ROGERS, Carl. Liberdade para Aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1978.


