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EDU031

 Por: Luciene Rodrigues Rochael Galvão.

O primeiro grupo ao qual uma pessoa pertence é a família. É na família que cada pessoa adquire os conceitos, hábitos e crenças que vão constituir o alicerce sobre o qual ela se apóia, os conceitos fundamentais sobre o mundo, as relações sociais, a ética, a forma como a sociedade se estrutura.

 Segundo Loureiro (2005), a escola pode ser considerada de grande relevância, pela influência que exerce na vida das crianças. Depois da família, ela é um dos mais importantes grupos dos quais a criança participa. A escola consolida e atualiza, na criança, as bases necessárias para a participação na vida social. É na escola que a criança vai incorporar sentimentos de adequação para a participação na sociedade mais ampla.

A escola tem, de certa forma, uma co-participação com a família, na educação das crianças no sentido de que tem a tarefa de cooperar com a família, de dar continuidade à preparação do indivíduo para que ele possa se inserir na sociedade mais ampla de forma satisfatória para si mesmo e para a sociedade na qual participa. Ela representa para a criança a sua pré-estréia em um grupo mais amplo, como sujeito capaz de construir junto com os outros, de criar e, pela sua atuação, de se realizar em uma importante dimensão da vida humana. A escola prepara a criança para sua participação efetiva na estrutura social, por isso não pode estar em oposição à primeira – a família – instituição que fundamentou os valores, crenças e conhecimentos. Se nessa dinâmica, ocorre uma ruptura no processo de socialização e de construção de si e do mundo, a criança não se sente segura, sua concepção de mundo fica fragmentada, dividida entre dois grupos, e ela pode desenvolver sentimentos ambivalentes, pode sentir-se inadequada para a participação na vida social.

É imprescindível que o processo ensino-aprendizagem parta do conhecimento que a criança traz ao chegar à escola. Sua concepção de mundo não deve, sob nenhum pretexto, ser negada, pois menosprezá-la é negá-la como pessoa, apta a participar ativamente da vida escolar. É abalar os alicerces sob os quais ela se apóia e sob os quais se desenvolveu. A criança precisa sentir que é aceito e que pode participar de forma construtiva no contexto escolar. Por meio de um diálogo autêntico, em um processo de aprendizagem que facilite o pensar crítico, a criança pode transformar a curiosidade ingênua em curiosidade epistemológica. Nesta etapa, o que está em jogo é um dos processos cruciais no desenvolvimento psicossocial da criança; é o desenvolvimento e a manutenção de uma identificação positiva com aqueles que personificam o conhecimento, aqueles que sabem as coisas e como fazê-las.

Rogers (1972), faz uma distinção entre o significado das palavras “ensinar” e “educar”. Para ele “ensinar” está relacionado apenas à transmissão de conhecimentos, um processo no qual o educando apenas decora os conteúdos que lhe são transmitidos. “Educar” é uma prática na qual o educador preocupa-se em facilitar o processo de aprendizagem que tenha significado para o aluno, que envolva várias dimensões do ser, facilitando, também o processo de crescimento, de auto-realização. A esse respeito, Rogers escreve:

O único homem que se educa é aquele que aprendeu como aprender, que aprendeu como se adaptar e mudar; que se capacitou de que nenhum conhecimento é seguro, que nenhum processo de buscar conhecimento oferece base de segurança. Mutabilidade, dependência de um processo, antes que de um conhecimento estático, eis a única coisa que tem certo sentido como objetivo da educação, no mundo moderno. (ROGERS, 1972, p. 105)

 A Educação Humanista, libertadora, tem como objetivo, através do diálogo, fazer o homem um ser da transformação do mundo, o coloca no centro das suas preocupações, a fim de prepará-lo para caminhar ao encontro dos outros, do mundo e a si mesmo. Desse encontro, retornar aos outros, do mundo e de si mesmo, sabendo-se transformado e transformando e que, portanto, viver como pessoa é saber-se sempre nesse processo. Ou seja, propõe-se a fazer do homem uma Pessoa, cujo conceito de Pessoa é saber-se devir, inacabado, incompleto e construtor de si mesmo e de seu futuro.

É neste contexto que se deve pensar a educação infantil: dentro de uma realidade concreta e palpável e não em termos de uma sociedade ideal. Baseada numa proposta curricular que leva em consideração a vida da criança na sociedade e tem como objetivo encontrar formas de não negar à criança o seu direito de descobrir, explorar, ser livre e criativa.

 Contudo, o modelo de homem para a sociedade atual, cuja característica básica é a mudança cada vez mais acelerada, é que este seja criativo e inovador no campo do conhecimento e não repetidor, da ciência do passado. Sem dúvida, nossa cultura necessita de indivíduos capazes de efetiva mudança. Mas como poderia a escola preparar a criança para tal exigência se sabemos, o quão devagar a educação as incorporará, tentando tornar-se, portanto, cada vez, mais um ambiente artificial e distante do mundo da criança? Precisamos de uma educação que proporcione oportunidades e lhes permita escolher vias próprias e direção pessoal de aprendizagem. Para tanto, precisa-se de uma proposta de currículo centrado na criança, na sua formação, nas suas reais necessidades.

Referências Bibliográficas:

LOUREIRO, Stefânie A. G. Alfabetização: uma perspectiva humanista e progressiva. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

QUELUZ, Ana G. A pré-escola centrada na criança: uma influência de Carl Rogers. São Paulo: Pioneira, 1984.

 ROGERS, Carl. Liberdade para Aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1978.

 

 

José Geraldo Rabelo*

Durante 25 anos, venho trabalhando com psicoterapia, atendendo crianças, adolescentes e adultos, individualmente ou em família, e a várias observações cheguei a respeito das falhas no processo psicoterápico.

Iniciamos dizendo que não existe psicoterapia individual, já que se trabalha, no consultório, no mínimo, com duas pessoas, cliente e psicoterapeuta. O que se aprende na faculdade sobre o não-envolvimento com o cliente vem sendo motivo de muitas discussões, mas acredito que não se pode ajudar uma pessoa sem um mínimo de envolvimento possível. O processo psicoterápico atual não funciona mais como funcionava há 15 anos, século passado, quando o cliente apenas falava e o profissional apenas ouvia ou pouco falava. Temos hoje uma clientela mais exigente e mais informações a respeito de como podem ser ajudados, quais os objetivos na psicoterapia e as diversas abordagens psicoterápicas; assim temos um diálogo mais aberto, mais humanista, voltado, assim se espera, para um mesmo objetivo: “duas pessoas que se encontram para se evoluir e se “conhecer”, sem, contudo, misturar os papéis e objetivos – cliente e psicoterapeuta”.

De um lado, nós temos a resistência de alguns profissionais, menos experientes, que se julgam “deuses” e acreditam que o cliente nada pode saber a seu respeito, o que vai dificultar a relação e o crescimento – o vínculo – pois pode existir a simpatia, mas dificulta o surgimento da empatia, ferramenta-chave no processo psicoterápico. Vejo e ouço de clientes que já tenham passado por outros profissionais que a falta de “envolvimento” do profissional no processo não fazia a terapia desenvolver, e a relação fora-se tornando apática. Claro que não podemos dirigir o cliente, tampouco lhe dar caminhos “prontos”, mesmo porque não existe caminho “pronto”, cada indivíduo segue seu próprio caminho com ou sem ajuda. A tomada de partido também tem sido uma das falhas no processo, pois já ouvi de cliente que o profissional “X” pediu que a mesma não falasse mais de seu ex-noivo (“ele foi um traidor e é o responsável pela sua depressão”), “se ele te traiu, não pense duas vezes… faça o mesmo com ele”, “foi-se a época em que nós (mulheres) dependíamos deles (homens)… separe-se logo e vai cuidar de sua vida… você já perdeu muito tempo”, “seu pai é o único responsável por tudo que você está passando”, e muitos outros absurdos.

Apesar das dificuldades pessoais de todo psicoterapeuta, temos também profissionais que só seguem um caminho, conhecem apenas uma abordagem psicoterápica e querem moldar o cliente, a qualquer custo; é como ir comprar uma roupa e tentar moldar o corpo para que se adapte a ela. Sabemos que o tempo que ficamos na faculdade só dá um “empurrão”; mas continuar lendo livros, participar de encontros, palestras e cursos, mesmo de pequena duração, é fator “sine qua non” ao crescimento profissional que terá, com certeza, mais argumentação durante uma sessão de psicoterapia.

Acredito que um “bom” psicoterapeuta, antes de qualquer coisa, deve estar sempre atento e aberto ao aprendizado, revendo diariamente conceitos de temas complexos e sempre atuais, tais como: ser humano, religião e Deus, amor e paixão, vida e viver, individualidade e individualismo, Psicologia e psicologismo, sexo e sexualidade, “pecado” e sentimento de culpa, doente e doença, perdão e desculpa, traição e “des-traição”, mortalidade e imortalidade, finito e infinito, alma e fé, comodismo e bom senso, vergonha e orgulho, dentre outros. Temas que a “certeza” pode levar ao caos e ao aniquilamento do Ser. Cabeça feita é aquela que precisa ser re-feita. Cuidado!
Um processo psicoterápico, seja qual for a abordagem utilizada, jamais terá sucesso se não estiver sustentado no amor e no crescimento “espiritual” do cliente, o que independe de sua crença religiosa.

O outro lado do processo psicoterápico, com certeza, tem também as suas resistências, não diria nem maior nem menor; cada relação tem suas particularidades, portanto, pode ter suas semelhanças, mas nunca serão iguais, pois, mesmo na relação entre cliente e psicoterapeuta, juntos há algum tempo em terapia, não existe uma sessão igual à outra. A vida caminha para frente, jamais se dirige para o passado, mesmo que esteja falando e recordando dele.

A maior dificuldade do cliente no processo psicoterápico é compreender que tudo vem dele: dor, angústia, depressão, infelicidade, insegurança, medo, vícios, dificuldades de relacionamento interpessoal etc, sentimentos que vai juntando durante o período em que o mesmo evitou os problemas para não sofrer. Mas, a maioria de nós, temendo a dor envolvida, tenta evitar os problemas. “Nós adiamos o confronto, esperando que eles sumam; nós os ignoramos, esquecemo-os, fingindo que eles não existem. Até mesmo tomamos droga (incluem as medicações) para nos ajudar a ignorá-los, de tal modo anestesiando-nos que esquecemos as causas da dor” – M. Scott Peck – muitos clientes depressivos são dopados para não atentar contra a própria vida; mas esquecemos que morrer pode ser também quando negamos a vida, os problemas, os próprios sentimentos; é negar o confronto com a vida. Tentamos contornar os problemas ao invés de encará-los; tentamos sair deles ao invés de vivê-los e sofrer. Essa tendência a evitar os problemas e o sofrimento emocional tem sido a maior causa de doenças psicoemocionais que afetam toda humanidade. “A neurose é sempre uma substituta do sofrimento legítimo” – Carl G. Jung.

Muitas pessoas não querem ou não podem suportar a dor de desistir daquilo que já foi ultrapassado. Em conseqüência, elas se apegam, às vezes, para sempre, aos velhos padrões de comportamento e pensamento, deixando de lidar com qualquer crise, de verdadeiramente crescer e de experimentar a ditosa sensação de renascimento que acompanha a transição bem-sucedida para um maior amadurecimento psicoespiritual. Num crescimento e amadurecimento saudável, teríamos que abandonar alguns padrões de comportamento como: o estado infantil, quando não é preciso responder a nenhuma exigência externa; fantasia da impotência; o desejo de possuir totalmente (inclusive sexualmente) os progenitores; a dependência da infância; imagens distorcidas dos pais; a onipotência da adolescência; a “liberdade” do descompromisso; a agilidade da juventude; a atração sexual e/ou a potência da juventude; a fantasia da imortalidade do corpo; a autoridade sobre os filhos; várias formas de poder pessoal, visíveis em muitos profissionais, patrões e políticos; a independência da saúde física; e, finalmente, a personalidade e a própria vida. Renunciar a personalidade nos dá a oportunidade de conhecer a alegria mais beatífica, sólida e duradoura da vida, pois é a morte que dá à vida todo o seu significado. Este “segredo” é a sabedoria central da religião.

Assim, podemos dizer que a psicoterapia falha, não há a menor dúvida, porque ainda somos falhos e medrosos, incapazes de assumir a nós mesmos como realmente somos, incapazes de nos compreender físico, psíquico, emocional, social e economicamente. Fica claro que a felicidade, que todos buscamos, independe da nossa situação financeira, nível intelectual, social e, principalmente, do outro; ela está em sabermos utilizar bem e com sabedoria o conhecimento, experiência e as “armas” que você já possui.

Apesar do ceticismo de ambos os lados, a psicoterapia tem auxiliado um grande número de pessoas que levam a sério o objetivo a que nos propomos na vida, buscando o equilíbrio interior para suportar com sobriedade o “desequilíbrio” do mundo exterior, assumindo um compromisso sábio com a vida e o viver, procurando viver a vida sem medo do que dirão os outros, plantando o que se quer colher e sabendo que ninguém tem a capacidade de fazer o outro feliz ou infeliz ou mudar o outro; mas que é no processo da busca e do tentame que o ser humano encontrará consigo mesmo e, isto se dá no relacionamento interpessoal. Não podemos negar que quem se submete ao processo psicoterápico por um período “razoável” de tempo, com um profissional experiente e com ética pessoal, beneficia-se em muito e se torna mais capacitado para enfrentar os “solavancos” da vida, aprendendo a ouvir e falar, dizer sim e não, e sentir a si mesmo sem medo no momento “certo” através da construção responsável de si mesmo.

A psicoterapia falha, não tenho dúvida, mas falhará menos quando cliente e psicoterapeuta estiverem voltados para o mesmo alvo: o amor verdadeiro e honesto assentado no respeito mútuo à dor vivida por ambos.

*psicólogo, psicoterapeuta, filósofo e escritor

Fonte:Diário da Manhã

Crime de Abandono

Father son ocean

A ausência da figura paterna na vida da criança pode ser responsável por boa parte dos casos de violência juvenil no País. Pesquisas apontam que cerca da metade dos jovens infratores não tem contato com os pais.

Por Rodrigo Gallo, Revista Sociologia, Ciência e Vida, pág 18, Ano 1 – número 10.

O número de menores infratores internados em instituições socioeducativas de todo o Brasil cresceu 28% entre 2002 e 2006, passando de 12.051 para 15.426 em quatro anos. Especialistas parecem já ter encontrado uma possível resposta para o aumento do total de criminosos com menos de 18 anos: a ausência da figura paterna. Uma pesquisa da Fundação Casa (antiga Febem) de São Paulo apontou que mais da metade dos internos viviam apenas com a mãe. Essa é uma situação muito semelhante à do resto do país. Sociólogos, psicólogos e o próprio governo admitem que uma das formas mais eficientes para combater à violência praticada por jovens é criar campannhas de planejamento famliar associadas a melhores nas políticas de educação e, desta forma, minimizar a delinquência nesta faixa etária.

Além disso, os especialistas apontam que o aumentam no número de menores infratores pode ser um reflexo tardio de mudanças ocorridas no comportamento sexual dos brasileiros nas últimas décadas – resultando na criação de milhares de filhos apenas pela mãe. A liberdade vivida pelas pessoas, principalmente a partir de 1960, inicialmente sob influência do movimento hippie norte-americano, resultou no nascimento de milhares de crianças criadas por mães solteiras ou que acabaram sendo entregues à adoção – o afastamento do pai nestas relações familiares pode ter sido o responsável pelo surgimento de alguns casos de violência.

Sem  o suporte de uma família com a participação e orientação paterna efetiva – muitos desses jovens acabaram marginalizados. Estimativas apontam que 60% dos pais jovens, que tiveram filhos durante a adolescência, acabaram se separando após um ano de relacionamento. Isso representa um volume de 400 mil crianças envolvidas em casos de separação todos os anos, embora muitos destes pais nunca tenham se casado oficialmente. O número pode ser pequeno se comparado às estatísticas dos Estados Unidos, onde um milhão de jovens são afetados pela separação dos pais anualmente. Mas ainda há uma situação preocupante. Com o passar dos anos, esse quadro se agravou de forma preocupante e culminou na superlotação das unidades da Febem em todo o País, principalmente nas grande s cidades brasileiras, como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Para muitos estudiosos, o problema do menor com pai ausente pode ser bem mais grave do que aparenta. Para o presidente da Organização Não-Governamental Brasil Sem Grades, a própria sociedade tem fechado os olhos para essa questão, que atingiu um nível sustentável. Há alguns anos a entidade vem analisando o aumento da violência, principalmente com o envolvimento de jovens, e constatou que realmente há uma ligação muito próxima entre o crescimento das internações nas unidades da Febem e o nascimento de crianças sem contato com a figura paterna. Esse cenário só se complica com o passar do tempo e, hoje, é um grave problema social que deve ser combatido com campanhas eficientes de paternidade responsável.

A teoria do presidente da ONG parece realmente certa. De acordo com a Fundação Casa de SP, 51% dos menores infratores do Estado conviviam apenas com a mãe, enquanto 7% moravam o pai, 23% com ambos e outros 19% sem pai ou mãe, conforme apontou a pesquisa divulgada em maio de 2006. Essa constatação reforça a tese de que a ausência de pai realmente desestrutura psicologicamente muitas crianças e adolescentes. Em consequência disso, milhares de jovens acabam chegando ao caminho do crime. “A função paterna está muito ligada à lei. A mãe tem um papel mais próximo de dar carinho e acolhimento, então , cabe ao pai mostrar os limites à criança desde pequena”, justifica a psicóloga Magdalena Ramos. “Sobrecarregada, a mãe não consegue assumir as duas funções e, sem o cumprimento da função paterna, a criança pode apresentar problemas mais sérios no futuro”, alerta.

Porém, cerca de um quarto das familias são mantidas apenas pelas mães, que são obrigadas a se desdobrar para suprir a falta do pai em casa. Embora, muitas dessas mulheres consigam dar uma boa educação aos filhos sozinhas, é muito difícil cumprir as duas funções em período integral. O casal  deve dividir a função dos filhos para nenhum dos dois ficar com obrigações demais. Sozinha, a mulher consegue educar a criança,  mas é preciso o dobro de dedicação.

O problema também está relacionado à falta de condições por parte da mãe de sustentar e vigiar a criança sozinha, em meio a tantos obstáculos financeiros. Por ter uma renda mensal baixa, a  mãe acaba sendo obrigada a mudar de casa frenquentemente, pois enfrenta dificuldades para conseguir pagar o aluguel, e os filhos menores são os pontos mais frágeis na etapa de adaptação ao espaço. Na pressão para ser aceito no novo grupo, o jovem acaba aceitando fazer coisas que normalmente não aceitaria, como consumir drogas ou praticar delitos.

Novamente, a ausência do pai pode ser umas das explicações para o ingresso precoce na criminalidade. Em muitos casos, a criança não se relaciona como pai porque ele está cumprindo pena em alguma penitenciária. Isso causa um impacto muito negativo nesse jovem, porque a figura do pai sempre acaba servindo como uma espécie de modelo.

O fator socioeconômico também é apontado como um dos problemas causados pela ausência do pai em casa. As estimativas referentes a diversos estados brasileiros mostram que pelo menos 30% dos menores infratores se consideram muito pobres e alegam que praticavam crimes para ajudar a mãe e os irmãos. Contudo, isso não exclui a participação de jovens abastados nas estatísticas de violência – sobretudo crimes relacionados ao consumo de drogas. Em algumas localidades, como São Paulo, o número de jovens criminosos de classe média também chegam perto dos 30%  indicando quase um desequilíbrio no perfil desses adolescentes em relação aos de classe menos favorecida. Contudo, a classe social é um fator importante na análise do mapa de criminalidade, mas não é o único fator determinante para a entrada de jovens no mundo do crime, pois, afinal, os casos de violência também chegam em bairros nobres e menos afastados das periferias. O que falta é a criação de políticas públicas para melhorar a educação das crianças e adolescentes, mas isso não deve ser feito apenas dentro das salas de aula. O importante é pensar a questão de forma mais estrutural e investir na formação do caráter desses adolescentes, por meio de programas sociais. Se não há nenhum pai biológico, alguém deve assumir essa função, como um padrasto ou mesmo um tipo mais próxio. O segredo é deixar a criança sem referência materna.

O Valor de um Pai

Family cuddling.

O papel do homem na consolidação de valores dos filhos.

Por: Laura Ward da Rosa. Revista Psique, pág. 57. Ano V

Embora a Psicanálise seja acusada de atribuir somente à mãe os problemas e sintomas que os filhos desenvolvem, na verdade o papel do pai sempre foi considerado central na constituição do sujeito e a sua presença indispensável para o desenvolvimento saudável da criança.

… A paternidade tem merecido constante investigação, quer quando se faz presente como função paterna exercida adequadamente, quer quando é deficiente ou mesmo ausente, trazendo consequências nefastas aos filhos e ao grupo familiar. Tanto quanto a mãe é a matriz, a origem psicobiológica e o primeiro objeto de amor e cuidado, indispensável nesse processo e seu papel é fundamental na instalação dos limites e da capacidade de simbolização do infans, impusionando a criança para o mundo, para crescer e deprender-se da mãe, para evoluir em outros espaços externos.

O pai é assim, o operador simbólico de alteridade e do limite, rompendo a relação exclusiva com a mãe, ao instalar a lei da proibição do incesto, propiciando o desenvolvimento e a autonomia do filho.

A sociedade atual é pródiga em excessos, consumo exagerado de bebidas, drogas, objetos eletrônicos, sexo, festas nas quais “é proibido proibir”, carros cada vez mais velozes, enfim, ritmos e sons alucinantes, como se somente por meio desse exagero o sujeito pudesse existir e marcar sua presença, para obter aprovação e prazer. O que a Psicanálise nos demonstrou é que tudo o que é imposto e excessivo está para além do príncipio do prazer, ou seja, inscreve-se no gozo que é pulsão demorte e leva o desprazer. Por outro lado, no trabalho clínico, convivemos com distintas formas de manifestações psicopatológicas, ditas novas patologias, que predominam na emergência do terceiro milênio. Citam-se distúrbios alimentares como anorexia e bulimia, as adições a drogas de diferentes tipos, cada vez mais potentes e determinantes de dependência física e psíquica.  Também nas doenças psicossomáticas, nas quais o corpo responde ao excesso de angústia diretamente fazendo lesões orgânicas predominam o instinto de morte.

Ainda como manifestações do excesso ligado ao corpo, verificamos, em muitos pacientes, distintamente de preocupação saudável de cuidar-se para manter a qualidade de vida, a necessidade imperiosa de manter a juventude por meio de procedimentos cirúrgicos repetidos, que tentam desmentir a passagem do tempo e o envelhecimento. Todo exagero focado no corpo visa preencher um vazio existencial, típico da condição narcisita do sujeito pós-moderno, alienado de seu próprio desejo e de seu próprio sentir, obrigado a adaptar-se ao Outro ou às regras da sociedade de consumo. As condições alienantes denunciam que padecemos da falta de limite, da ausência de alguém que diga NÃO, que imponha ordem, que diga: até aqui podemos – além daqui não podemos, sob pena de cavarmos nossa própria destruição ou abolição da subjetividade. Outro fenômeno assustador do mundo atual é o acréscimo de incidência de pedofilia, um tipo de perversão que diariamente ocupa os meios de comunicação de diversos países, disseminada por várias redes, na internet.  A anulação paterna é um dos fatores determinantes para desencadear a pedofilia. Um pedófilo é o sujeito que ficou detido no narcisismo da infância e precisa de parceiros infantis para se identificar.

O pai é o operador simbólico da alteridade e do limite, rompendo a relação exclusiva com a mãe. A instalação do pai simbólico vai coincidir com a repressão da sexualidade, em prol do desenvolvimento da cultura.

Na menina ou no menino, o primeiro objeto de amor é a mãe, mas enquanto o menino já nasce vinculado ao objeto heterossexual, é obrigado a abandoná-la, porque verifica a presença do pai e o teme e também pelo amor ao pai, identifica-se com ele. Na menina, há todo um movimento mais complexo: pela fantasia de não ser completa, por se sentir em desvantagem, abandona o vínculo ressentida com a mãe e volta-se para o pai, na busca de alguém que a complete. Destacamos a importância da aprovação do pai à menina, de valorização de seu sexo, para que ela possa construir uma identidade de gênero adequada, isto é, identificar-se com a mãe, com os atributos da feminilidade  para poder desejar construir, no futuro, um vínculo com parceiro, escolhido à semelhança do pai.

A função paterna é, desse modo, indispensável para a resolução dessas etapas do conflito, o que Freud chamou de Complexo de Édipo, triangulação que determinará a identidade de gênero em ambos os sexos. A interdição, que é básica na estruturação edípica, indica, não só a circulação do desejo entre pais e filhos, mas, principalmente, que o objeto sexual deve ser procurado fora do ambiente familiar.

É na medida em que a mãe se afasta que a criança começa a simbolizar, até para poder chamá-la. Nas idas e vindas da mãe, surge a capacidade simbólica e a linguagem, elaborando a falta da mãe. A lei da interdição com os elementos de parentesco, exercida pela função paterna, deve ser internalizada, inscrevendo a alteridade, a díferença e a identidade sexual, ao mesmo tempo em que forma o laço social e a cultura. O valor conceitual do mito freudiano foi o de demonstrar a importância do pai como função determinante da passagem do homem da natureza à cultura.

Na sociedade pós-moderna, há cada vez menos o papel do pai como limitador, criando assim indivíduos que fogem do controle. O pai agressivo e violento pode causar tantos danos ao filho quanto o pai omisso, porque em ambos os casos há falta da função paterna que é dar limite, mas também dar amor e cuidado. Enquanto o pai violento atemoriza demais, o pai omisso passa para a criança a sensação de abandono e rejeição.

Contudo, a função paterna não depende do genitor, a noção de pai instala-se como um operador simbólico, independente do pai encarnado, ou seja, a função paterna pode ser exercida pelo governo, pelo juiz, ao determinar a lei, nas famílias nas quais o pai está ausente.

Por outro lado, é comum estar o pai fisicamente presente na família, mas impossibilitado ou sem interesse em exercer a função paterna. Assim, todo o poder é exercido pela mulher, na condição de “fálica’, que se considera “dona dos filhos”, desvalorizando o homem e afastando-o da prole. Nas condições em que há rejeição inconsciente do significante paterno, diferentes patologias de maior ou menor gravidade podem ocorrer, desde os quadros psicóticos, distúrbios bordeline, caracteropatias e perversões.

No mundo atual globalizado, reformulam-se as referências familiares e sociais, de modo a abolir a autoridade e eliminar as diferenças. O decréscimo da função paterna é fenômeno inquestionável em nossos dias. A cultura pós-moderna rejeita o que não é semelhante. Nas famílias, crianças tantam dominar seus pais e estes não conseguem colocar-lhes limites. Nas escolas, professores são agredidos por seus alunos, que contestam as normas disciplinares, não raro apoiado pelos pais. Há um favorecimento da violência e a rivalidade sem limite, ao tentar apagar as diferenças impositivamente.

É o descrédito na ética do limite, advinda da função paterna, a falência absoluta do Estado, que deveriam ocupar esse lugar da lei efetiva na proteção de cidadãos favorecendo uma sociedade doente, órfã de valores importantes para a construção de um indivíduo saudável, pleno e feliz.


Indisciplina escolar, um grande problema da educação.

Uma das questões mais discutidas no âmbito escolar está ligada à indisciplina, essa constantemente gera muita polêmica, as causas são inúmeras e dificilmente se chega a uma conclusão.

Nesse sentido, o primeiro passo a ser traçado é a realização de uma análise no “embrião” do problema, ou seja, na origem da questão, é partir daí que se conhece os motivos que levam os indivíduos a comportar de forma indisciplinada.

Antes de julgar o comportamento de alguns é preciso verificar a realidade da escola, da família, o psicológico, o social, além de muitos outros.

As manifestações de indisciplina, muitas vezes, podem ser vistas como uma forma de se mostrar para o mundo, mostrar sua existência, em muitos casos o indivíduo tem somente a intenção de ser ouvido por alguém, então para muitos alunos indisciplinados a rebeldia é uma forma de expressão.

Muitas escolas não oferecem espaços adequados para a prática de esportes, para brincar ou correr nos intervalos. Diante disso, o espaço escolar fica limitado somente à sala de aula, como crianças e adolescentes detêm muita energia, a falta de locais para “gastar” essa energia conduz à indisciplina.

Outro aspecto de grande relevância é a família, problemas de diversas ordens podem acarretar na indisciplina escolar, talvez esse aluno conviva em um lar desestruturado onde os pais não se respeitam e assim reproduzem o que presencia em casa na escola.

Além disso, problemas psicológicos e sociais atingem diretamente o rendimento escolar, mais precisamente no fenômeno da indisciplina que se tornou, nos últimos anos, um dos principais problemas da educação no Brasil.

A indisciplina cresce constantemente, produto de uma sociedade na qual os valores humanos tais como o respeito, o amor, a compreensão, a fraternidade, a valorização da família e diversos outros foram ignorados.

Por Eduardo de Freitas
Equipe Brasil Escola

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