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As famílias alegam que, se cometem exageros, é por causa do stress e da correria. Mas os especialistas alertam que gritos, discursos críticos e profecias negativas têm um efeito devastador sobre as crianças e provocam até distúrbios psicológicos.

Por: PATRÍCIA ZAIDAN, GIEDRE MOURA E FERNANDA QUINTA

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Em inúmeras casas, o dia começa assim: as crianças demoram para acordar, depois se atrasam no banheiro e enrolam na mesa do café. Em cada etapa desse roteiro, a mãe vai elevando o tom de voz. Até que, quando os filhos entram no carro, ela  nota que não pentearam os cabelos. Aí, atrasada para o trabalho, ela berra. À noite tem nova sessão por causa da toalha molhada em cima da cama, do computador ligado até  tarde… Muitos pais não percebem, mas educam à base de brados. O futuro, nesses casos, não é muito  promissor. Um grito entra feito agulha. E fica. Assim como tapas e puxões de orelha na infância podem formar um adulto violento, a intimidação também produz distúrbios psicológicos. É tão prejudicial quanto a agressão física. A criança tende a resolver os impasses sempre berrando. Mais tarde, terá dificuldade para se expressar de forma equilibrada e será intolerante no trabalho, nas relações afetivas e sociais. Ou cairá no extremo oposto, no silêncio e na submissão.

Alessandra Dutra, mestra em psicologia social pela PUC de São Paulo, lembra o caso de uma paciente de 42 anos, empresária bem-sucedida, que não conseguia se realizar em envolvimentos amorosos. O desconforto diante dos homens teve origem num episódio que vivera aos 4 anos. Ela brincava com um carrinho enquanto o pai assistia a um telejornal. Ao passar na frente da TV, ouviu apenas uma palavra: “Saia”. A voz soou tão alta, rude e ameaçadora que a garota fez xixi ali mesmo. “Um grito pode provocar um trauma leve, moderado ou severo”, afirma a psicóloga. A empresária percebeu na terapia que a cena da infância havia causado dupla humilhação. Ao ouvir a repreensão desmedida, acreditou ter cometido um erro irreparável. Além disso, perdeu o controle e urinou na sala. Veio daí a dificuldade, de ouvir “não” por parte dos homens. Para evitar reações como a do pai, a empresária se mostrava submissa, temendo desagradar.

Para ver quanto os filhos se incomodam com a gritaria dos pais, basta dar um passeio pelo Orkut. Só a comunidade “Eu odeio quando minha mãe grita” tem 12 mil cadastrados, a maioria adolescentes. Em coro, eles reclamam: “Minha mãe não fala, só berra”. Mariana P., 17 anos, desabafa: “Nessas horas, me dá vontade de sumir. Já não sei mais o motivo. Antes era porque eu tinha de voltar cedo para casa. Agora, que não tenho saído, ela continua urrando sem parar, não entendo: TPM não pode ser, porque ela grita todo santo dia”.

FALSAS VERDADES

Para ferir, a frase não precisa ser dita em tom de voz elevado ou ter um conteúdo pesado. O que conta é a mensagem e a insistência com que ela é reprisada. Irineu Miano Júnior, psicólogo e diretor da escola Crianças em Convívio Tia Ana, em Itatiba (SP), compara a criança a uma folha de papel em branco. “O que os pais colocarem nesse papel será a verdade absoluta.” A razão é simples: a criança, até por volta dos 6 anos, vê o mundo pela ótica dos pais. As mensagens que transmitem são a base para ela construir a própria convicção. Miano Júnior nota que as famílias tendem a educar apontando os aspectos negativos. Se uma pessoa escuta, desde cedo, que ela não faz nada direito, acaba se sentindo incapaz de tomar decisões sozinha. Frases como “Você só tira notas baixas”, “É incompetente” e “Não será nada na vida”  levam a criança a acreditar que ela está fadada ao fracasso. O diretor aconselha os adultos a repensarem as expressões pejorativas e as frases de efeito devastador que deixam escapar. “Elas têm muita repercussão”, afirma. Tamara Santos Cruz, 12 anos, já incorporou uma característica que a sociedade despreza: a lentidão. “Sou mesmo meio lerda, faço as coisas muito mais devagar que os meus irmãos. Em casa, meu apelido era tartaruga.”

Algumas crianças se esforçam para desfazer os estigmas e superar as dificuldades supervalorizadas pelos pais. Se não conseguem, arrastam o rancor para a vida adulta. O diretor de cinema Woody Allen é um crítico desse modelo de educação. Seus filmes são pródigos em citações sobre estragos causados pelas “verdades” que os pais incutem nos filhos. Em NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA, Allen lembra: “Sol faz mal. Tudo que nossos pais disseram que era bom é ruim. Sol, carne vermelha, faculdade…”

VEXAME TOTAL

O adolescente tem mais repertório para reagir contra aquilo que ouve. Mesmo assim, sofre. Mara S., 14 anos, anda aborrecida com a mãe. “Não sei por quê, mas ela detesta as minhas amigas. Toda vez que volto de um encontro com as meninas, diz: ‘Você vai acabar vagabunda como elas’. Tem coisa pior do que ouvir isso da própria mãe?” A situação complica quando Mara vê a intimidade escancarada em público: “Menstruei pela primeira vez e minha mãe contou às minhas tias num almoço de família. Fiquei uma semana sem dirigir uma palavra a ela”. Segundo Miano Júnior, o que parece bobagem para os pais pode ser muito importante para os filhos. “Uma exposição assim provoca o afastamento e põe em risco o diálogo.” Com a quebra da relação de confiança, o filho deixa de se abrir e dividir alegrias. Há famílias que usam a platéia para dar lições. Acreditam que levar o filho ao vexame pode ser pedagógico. Não é raro encontrar mães que contam aos coleguinhas do filho de 5 anos que ele faz xixi na cama. Pais de adolescentes adoram entregar, em público, que o garoto deu uma pisada na bola. Não percebem, mas cutucam o brio, provocam a vergonha. Os filhos não gostam de ser expostos nem mesmo no triunfo. A revelação de que receberam medalha no futebol ou tiraram 10 soa como um mico impagável.

CRÍTICAS PESADAS

Depois de uma briga com a mãe, Ágata Moraes, 17 anos, saiu de casa pensando em nunca mais voltar. “Ela me critica o tempo todo por causa dos estudos, da bagunça do quarto, porque não ajudo a cuidar da minha irmã. Também sei dizer grosserias. Soltei uma e fui embora.” A garota passou a tarde inteira fora e concluiu que, embora a mãe tivesse razão em muitas coisas, tinha ido longe demais partindo para o insulto. A principal queixa dos adolescentes é que a crítica nunca vem sozinha: os pais firmam uma sentença antes de dar direito de defesa. Ágata tinha explicações para o desleixo em casa, mas não pôde conversar sobre o assunto.

Os pais alegam que o stress e a correria são os responsáveis pelos exageros que cometem. Ao chegar tarde do trabalho, sentem-se na obrigação de corrigir desvios de rota dos filhos. Agem, ainda, sob a tensão do mundo moderno, que expõe as crianças a inúmeros perigos. Os especialistas em comportamento compreendem as justificativas, mas alertam: não há processo da educação que se desenvolva numa torre de Babel. Nos anos 60, quando os castigos corporais foram condenados, a palavra ganhou força. A discussão tornou-se o foro dos entendimentos. Mas está desgastada e tem de ser reaprendida. “O ponto de partida para retomar o diálogo é a paciência”, diz Silvia Martinelli Derroualle, psicanalista especializada no atendimento de crianças e adolescentes. Para ela, uma comunicação menos agressiva só se estabelece quando os envolvidos entendem que estão irritados e que precisam se controlar antes de falar. “Se comparada à palmada, a palavra é muito mais difícil de segurar. No momento em que os pais perdem o controle, perdem também a razão”, analisa. Isso não significa que devem suspender as broncas. “Pelo contrário, a bronca justa tem o seu lugar”, afirma a professora de psicologia da PUC Isabel Kahn. “É função dos pais repreender, criar regras, negociar e até reconhecer o papel saudável da briga”, diz. Só não podem sair gritando e chutando o balde. No lugar do destempero, ela recomenda sinceridade para confessar: “Estou muito nervoso, vamos conversar mais tarde”. Se, depois de compreender tudo isso, os pais decidirem modular o tom da voz, um lembrete: o corpo também fala. E as crianças entendem essa linguagem. A professora de comunicação e semiótica da PUC Ana Alves Oliveira diz que não adianta apenas domar a língua. “Na intenção agressiva, a entonação, o olhar, os gestos e a postura corporal vão se revelar hostis. Se o sentimento é a raiva e as palavras são doces, o corpo irá mostrar a mentira.”

Eu fiquei doente

Este depoimento, de uma jornalista que prefere se manter no anonimato, mostra até que ponto a ironia e a insensibilidade familiares podem detonar a auto-estima de uma garota

Quando eu tinha 12 anos, meu pai, já separado da minha mãe, começou a namorar uma modelo de 17 anos, magrinha e bonita. Ele elogiava a amada o tempo inteiro. Eu também queria receber elogios, mas ele só falava nela. Passei a achar que só gente assim, enxuta, podia ter qualidades. Para piorar, sempre que ele viajava, trazia de presente roupas de números bem maiores que o meu. Eu ficava péssima. De tanto ouvi-lo falar, me convenci de que estava mesmo gorda, um monstro. Resolvi regime, um atrás do outro. Mas não conseguia perder peso e acabava comendo mais. Aos engordei 12 quilos. Minha mãe passou a me chamar de batatinha. Fiquei ainda mais. Tentava emagrecer, fazia jejum. Comecei a provocar o vômito. Com 16 anos, tomava laxante inibidores de apetite. Um ano depois, pesava apenas 45 quilos. Bem mais tarde, procurei tratamento, e hoje, aos 24 anos, a bulimia está controlada. Mas não digo que estou curada.

http://claudia.abril.com.br/materias/2258/?pagina4&sh=34&cnl=48&sc=

0,,31927506,00Você já imaginou que elogiar as crianças pode não ser a melhor forma de ajudá-las a se desenvolver? Ao fazer essa descoberta, dois jornalistas norte-americanos investigaram outros mitos relacionados à infância. O resultado foi Nurture Shock, um livro que traz um novo olhar sobre a educação dos filhos.

Como você se sentiu quando chegou com seu bebê em casa pela primeira vez? Com certeza, teve um frio na barriga e, insegura, se perguntou: o que eu faço agora? Partindo desse sentimento, os jornalistas Po Bronson (pai de duas crianças) e Ashley Merryman (que não tem filhos) escreveram Nurture Shock: New Thinking About Children (Um novo olhar sobre a educação das crianças, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil). “Apesar de ‘nurture shock’ ser o termo usado para pais de primeira viagem, pensamos que essa insegurança pode ocorrer com qualquer pai quando se depara com algo para o qual não se sente preparado”, afirmam.

Mais do que escrever um manual, o objetivo dos autores foi reunir pesquisas sobre assuntos que todo pai tem de encarar em algum momento da vida de seu filho. O resultado foi uma obra que mexe com muitas das certezas das famílias. Para você ter uma ideia, a primeira descoberta deles foi como o elogio, em vez dar autoconfiança, acaba deixando a criança com receio de testar coisas novas. A partir dessa constatação, os jornalistas foram atrás de outros estudos e chegaram ao material reunido no livro. Na entrevista por e-mail à CRESCER, eles explicam os principais pontos.

Elogiar pode ter efeito inverso

A pesquisadora Carol Dweck, da Universidade de Stanford (EUA), avaliou o efeito de frases como “você foi muito bem na prova”, “como você é inteligente!” e descobriu que esse tipo de elogio produz um efeito contrário. As crianças passam a acreditar que o sucesso é algo inato – ou elas têm, ou não têm. O melhor a fazer, portanto, é elogiar o processo pelo qual a criança fez determinada coisa. Quando seu filho joga bem futebol, em vez de afirmar ”você é um grande atleta”, é melhor dizer “foi ótimo quando o outro time fez um gol e você não se abalou”, ou “gostei como você driblou aquele jogador”. Assim, a criança vai saber o que fez bem e, então, pensar em como repetir o feito da próxima vez.

Menos stress em família

Um pesquisador perguntou às crianças o que elas mudariam em seus pais. Os adultos esperavam que a resposta fosse “mais tempo”. No entanto, o que elas querem é que os pais estejam menos estressados durante os momentos que passam juntos.

Ser honesto é o mais importante

Ao considerar todas as pesquisas que investigamos, uma coisa se destacou o tempo todo: a importância dos pais serem honestos com seus filhos. É na tentativa de manipular as crianças que surgem os problemas: quando, por exemplo, brigam entre si, mas agem como se estivesse tudo bem na frente dos filhos. É um relacionamento baseado na confiança que sustentará seu filho na medida em que ele cresce.

Esqueça a culpa por não fazer tudo certo

Os pais não devem se sentir obrigados a seguir todo conselho que ouvem. O que precisam é perguntar de onde veio o conselho e qual a evidência que o sustenta: é algo que eu acho importante para educar meu filho? A maioria dos pais está fazendo o melhor que pode e com base no que têm à disposição: tempo, dinheiro, recursos ou know-how.

Coloque o seu filho na cama mais cedo

Os pais precisam considerar o sono dos filhos como questão de saúde. Quando repousa é que o cérebro da criança codifica o que ela aprendeu de dia. Dormir é essencial também para regular as emoções e o metabolismo. Se você não põe seu filho na cama para passar mais tempo com ele, precisa se perguntar: vocês estão interagindo? Ou você só deixou a TV ligada e não está prestando atenção à criança? Se esse for o caso, então ela deve, sim, ir para a cama.

Converse sobre diferenças raciais com as crianças

Elas podem não compreender os aspectos culturais, mas, desde bebês, enxergam diferentes cores de pele, de cabelo e de físico. As mais novas pensam que, se um colega se parece com ela, têm outras coisas em comum e poderão ser amigos – vai acontecer o contrário se for um colega com cor de pele diferente. Pesquisa da Universidade do Colorado (EUA) acompanhou 200 crianças (metade branca e metade negra) e constatou que, aos 3 anos, 86% delas escolheram amigos de sua própria raça. Por isso, é importante explicar ao seu filho que aparência é apenas o que está por fora.

Lembre-se que nem tudo é apenas “bom” ou “ruim”

Se pensarem com base nesses termos, os pais vão cair em estereótipos e perder o principal. Até mesmo um programa educativo que mostra como ser gentil, por exemplo, pode ter um lado negativo (pense em um desenho em que os personagens brigam o tempo todo e reatam só no fim…). Além disso, as próprias crianças também não são inteiramente “boas” ou “más”. Aquela “criança difícil” pode ser legal com os amigos, enquanto aquela vista como a boazinha também pode ter atitudes mesquinhas.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI101836-15153,00-UM+NOVO+JEITO+DE+CRIAR+OS+FILHOS.html

0,,21836973,00Não adianta ter pressa para o seu filho ganhar essas habilidades. O melhor é respeitar o tempo dele e segurar a sua ansiedade. Veja como você pode estimular a criança Crescer É lógico que o seu filho vai ler e escrever. Mesmo sabendo disso, a maioria dos pais entra em uma fase de enorme ansiedade enquanto a criança é alfabetizada. E, mesmo inconscientemente, cobram resultados do filho, o que atrapalha todo o processo. “A criança aprende com o prazer, não precisa ser cobrada ou comparada com outras. Ela precisa principalmente ver sentido no que aprende, viver em um contexto onde a escrita e a leitura sejam um prazer para os pais”, diz Liamara Montagner, coordenadora pedagógica da Educação Infantil do Colégio Santo Américo (SP). E cada uma tem seu tempo. O importante é ela se desenvolver durante o aprendizado, responder ao método que a escola propõe. Troque a ansiedade por diversão, brinque com os nomes da família, deixe ela contar histórias para você. Conte como os adultos escrevem, converse com o professor para conhecer melhor o método da escola e veja se é possível fazer algo junto, sem esquecer que a tarefa é, sim, da escola. “Caso a criança apresente algum problema concreto, a escola estará atenta e saberá fazer as mudanças necessárias e de forma mais personalizada”, diz Liamara.

0,,21836982,00PARA GOSTAR DAS LETRAS

 

 

 

 

0,,21836983,00Bilhetinhos:

Deixe recados com palavras fáceis no travesseiro de manhã. Um “estou com saudade” é fácil de ler e mostra o seu carinho

 

 

 

0,,21836984,00Listas:

 Você pode pedir para a criança fazer listas: do que gosta de comprar na padaria, das cores preferidas, dos personagens…

 

 

 

0,,21836985,00Brinquedos:

Vale-tudo, de letras de borracha ou madeira, para a criança concretizar os símbolos, até caça ao tesouro usando palavras que ela já conheça.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI99629-15152,00.html

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Segunda, 12 de outubro de 2009, 10h25

http://noticias.terra.com.br

 Em tempos de tantas dúvidas sobre a educação dos filhos, o inglês Carl Honoré, também pai, reflete sobre os perigos de se manter um comportamento obsessivo e cobrador em relação à educação das crianças. No livro Sob Pressão (Editora Record, R$ 49), que acaba de chegar às livrarias brasileiras, ele mostra, por meio de pesquisas e opiniões de especialistas, como a preocupação excessiva dos pais com o desempenho dos filhos coloca as crianças numa posição que não é a delas. Com a agenda cheia de fazer inveja a altos executivos, elas perdem a oportunidade de encontrar por si mesmas seus verdadeiros interesses e talentos. Muitas são obrigadas, por exemplo, a fazer aulas de pintura porque seus desenhos obtiveram elogios da professora.

 ”As crianças que são muito ocupadas e organizadas podem acabar menos criativas. Elas não têm o tempo ou o espaço para explorar o mundo em seus próprios termos,para aprender a correr riscos e a cometer erros”, disse Carl Honoré a entrevista concedida ao Portal Terra.

 Terra – É mais difícil educar as crianças hoje em dia?

Carl Honoré -De certa forma, a resposta é sim. Vivemos em uma cultura baseada na competição, elevando as expectativas e a impaciência. Queremos que tudo seja perfeito e agora. Isso coloca uma enorme pressão sobre os pais para criar um superfilho. A proximidade da fronteira entre as gerações também criou incerteza sobre como criar filhos. Esta geração de pais quer ficar jovem para sempre – vamos ouvir a mesma música, usar a mesma roupa, falar a mesma gíria, como nossos filhos. Isso deixa menos espaço para as crianças se definirem. E também torna mais difícil para nós, como pais, impor disciplina.

 Mas nem tudo é má notícia. Há também muitas vantagens para crescer no início do século 21, especialmente na classe média. As crianças são menos propensas a sofrer de desnutrição, negligência, violência ou morte do que em qualquer momento da história. Estão rodeadas por confortos materiais que seriam impensáveis há uma geração atrás. Legiões de acadêmicos, políticos e companhias estão se esforçando para encontrar novas maneiras de cuidar, alimentar, vestir, ensinar e entretê-las. Seus direitos estão consagrados no direito internacional. A internet é uma fronteira extremamente excitante e nova para aprender e jogar. Os pais são muito mais emotivos com seus filhos do que nunca. Famílias estão menos autoritárias do que costumavam ser.

 Terra – Uma criança muito ocupada, com uma agenda cheia de atividades, é conveniente para os pais. Mais tarde, quando ela crescer e se der conta, qual o resultado?

CH – As crianças que são muito ocupadas e organizadas podem acabar menos criativas. Elas não têm o tempo ou o espaço para explorar o mundo em seus próprios termos, para aprender a correr riscos e a cometer erros. Elas não aprendem a pensar por si mesmas, apenas fazem o que é dito. Também não aprendem a olhar para dentro de si e descobrir quem são, já que estão muito ocupadas tentando ser o que nós queremos que elas sejam. E ainda: não aprendem a usar o tempo ou como preencher o tempo por conta própria – assim se cansam mais facilmente e podem sofrer de estresse e exaustão. As crianças que tiveram cada momento de sua vida gerida, organizada, controlada e programada pelos adultos, terão mais dificuldades de andar com seus próprios pés mais tarde. Em outras palavras, elas nunca crescem. É por isso que os estudantes universitários estão sofrendo problemas de saúde mental em números recordes.

 Terra – Hoje os pais buscam receitas mágicas para educar, tanto que há inúmeros manuais desse tipo nas livrarias. Eles funcionam ou seria mais interessante seguir os instintos paternos?

CH – Não existe uma fórmula mágica para criar filhos. Cada criança é única e cada família é única. O segredo é encontrar a fórmula, o estilo de paternidade que funciona melhor para você e seus filhos – e não seguir exatamente o que todo mundo está fazendo. O problema é que os pais de hoje são oprimidos por uma avalanche de conselhos, advertências e opções -e não sabem o que fazer. E quando não sabemos o que fazer a nossa resposta é muitas vezes apenas fazer o que todo mundo está fazendo.

Eu escrevi Sob Pressão para recuperar a minha própria confiança como pai e ajudar os outros a fazer o mesmo. Pais confiantes são capazes de resistir ao pânico e à pressão dos demais, a fim de encontrar sua própria maneira de educar os seus filhos. Acho que manuais para os pais às vezes podem ser úteis. Mas se você usá-los em demasia, eles podem acabar minando a sua confiança, de modo que você sinta que não pode fazer nada sem antes consultar um manual ou um especialista.

Terra – É comum ouvir que a criança deve aprender brincando. O que significa isso?

CH – A brincadeira é um impulso básico para as crianças. E quem passa o tempo com as crianças sabe disso. Brincar permite que elas criem mundos imaginários onde podem enfrentar os medos e ensaiar papéis adultos. Como os cientistas, elas arriscam as teorias sobre o mundo. Brincar em grupos sem executar o programa dos adultos ajuda as crianças a aprender a lidar com os sentimentos das outras pessoas e com a frustração. Basta assistir a um casal de crianças de três anos construindo uma casa de varas no jardim. Elas reúnem o material, negociam como montá-la, inventam regras, disputam o que cada uma coloca e onde. Crianças que brincam livres também começam a descobrir os seus próprios interesses e paixões, forças e fraquezas. A brincadeira é também uma versão natural do mais estruturado sistema de aprendizagem que ocorre na sala de aula e ajuda a estabelecer as bases para a leitura, a escrita e a aritmética. Como Maria Montessori (educadora italiana que criou o método pedagógico montessoriano) afirmou: “Brincar é o trabalho de uma criança.”

 Terra – Tanta ambição e monitoramento em cima dos filhos podem sernegativos para as crianças. Mas deixá-los “livres” para aprender seria a solução?

CH – É necessário equilíbrio. Uma parte importante da função dos pais é incentivar seu filho a ser ambicioso, para tirar o melhor dele, para cumprir o seu potencial. As crianças também precisam de limites para se sentir seguras – e ter algo para desafio. Mas isso é apenas uma parte da questão. A liberdade de aprender, de explorar o mundo em seus próprios termos é também essencial. A criança estará sempre melhor quando aprender a seguir o seu próprio interesse ou paixão, ao marcar o seu próprio caminho – e não apenas seguir o mapa estabelecido por outras pessoas. Em todo o mundo, os alunos estão abandonando os seus estudos universitários no primeiro ano em números recordes. Por quê? Porque, pela primeira vez em suas vidas estão longe de casa e livres para pensar sobre o que eles querem fazer com suas vidas. E estão percebendo que, de repente, seguindo o caminho traçado por seus pais ou outras pessoas, eles terminaram no curso de graduação errado. Não querem ser advogados, e sim arquitetos. Não querem estudar medicina, e sim engenharia. Dar às crianças a liberdade de aprender mais cedo na vida iria ajudá-las a não cair no caminho errado.

 Terra – Colocar crianças para aprender línguas, trabalhar em grupo, praticar esportes competitivos e outras tarefas que fazem do mundo adulto tão cedo pode ter resultado inverso? Qual seria a idade mais adequada para começar os cursos extracurriculares?

CH – Novamente é tudo uma questão de equilíbrio. Devemos dar aos nossos filhos uma experiência rica de mundo e encorajá-los a aprender e experimentar com muitas atividades diferentes. O problema começa quando vamos longe demais, quando se estrutura e organiza todos os momentos da vida de nossos filhos. É difícil dizer exatamente o tempo ideal para iniciar atividades extracurriculares. Cada criança é diferente. Mas, em geral, eu acho que não há necessidade de atividades organizadas quando têm idade entre 0 e 5 anos. Não há problema em colocá-las em talvez uma ou duas atividades, mas não é preciso. Elas não vão sofrer se não estiverem em atividades nessa fase. Na verdade, irão se beneficiar de brincar livremente.

 Terra – Existe uma nova linha de ensino ou de tendência hoje em dia nas escolas?

CH – Na maioria dos países, os sistemas de educação ainda são orientados para o modelo do século 19: preencher o tempo das crianças com informação, e, em seguida, testá-las mais e mais. Isso é completamente inútil no século 21. Precisamos de escolas que cultivem a criatividade. A boa notícia é que a mudança está chegando. Em todo o mundo, os sistemas escolares estão começando a reduzir a obsessão com os exames e estão diminuindo a carga de trabalho acadêmico e descobrindo que, quando os alunos têm mais tempo para relaxar, refletir e tomar conta de sua própria aprendizagem, eles aprendem melhor. No ano passado, Toronto (Canadá) tornou-se a primeira cidade da América do Norte a reduzir a lição de casa em todos os níveis. Cargilfield, uma escola privada, na Escócia, proibiu totalmente a lição de casa para alunos de 3 a 13 anos. Dentro de um ano, as notas de exame em matemática e ciências aumentaram quase 20%.

 Leia esta notícia no original em: Terra

http://mulher.terra.com.br/interna/0,,OI4037049-EI1377,00.html

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