
O papel do homem na consolidação de valores dos filhos.
Por: Laura Ward da Rosa. Revista Psique, pág. 57. Ano V
Embora a Psicanálise seja acusada de atribuir somente à mãe os problemas e sintomas que os filhos desenvolvem, na verdade o papel do pai sempre foi considerado central na constituição do sujeito e a sua presença indispensável para o desenvolvimento saudável da criança.
… A paternidade tem merecido constante investigação, quer quando se faz presente como função paterna exercida adequadamente, quer quando é deficiente ou mesmo ausente, trazendo consequências nefastas aos filhos e ao grupo familiar. Tanto quanto a mãe é a matriz, a origem psicobiológica e o primeiro objeto de amor e cuidado, indispensável nesse processo e seu papel é fundamental na instalação dos limites e da capacidade de simbolização do infans, impusionando a criança para o mundo, para crescer e deprender-se da mãe, para evoluir em outros espaços externos.
O pai é assim, o operador simbólico de alteridade e do limite, rompendo a relação exclusiva com a mãe, ao instalar a lei da proibição do incesto, propiciando o desenvolvimento e a autonomia do filho.
A sociedade atual é pródiga em excessos, consumo exagerado de bebidas, drogas, objetos eletrônicos, sexo, festas nas quais “é proibido proibir”, carros cada vez mais velozes, enfim, ritmos e sons alucinantes, como se somente por meio desse exagero o sujeito pudesse existir e marcar sua presença, para obter aprovação e prazer. O que a Psicanálise nos demonstrou é que tudo o que é imposto e excessivo está para além do príncipio do prazer, ou seja, inscreve-se no gozo que é pulsão demorte e leva o desprazer. Por outro lado, no trabalho clínico, convivemos com distintas formas de manifestações psicopatológicas, ditas novas patologias, que predominam na emergência do terceiro milênio. Citam-se distúrbios alimentares como anorexia e bulimia, as adições a drogas de diferentes tipos, cada vez mais potentes e determinantes de dependência física e psíquica. Também nas doenças psicossomáticas, nas quais o corpo responde ao excesso de angústia diretamente fazendo lesões orgânicas predominam o instinto de morte.
Ainda como manifestações do excesso ligado ao corpo, verificamos, em muitos pacientes, distintamente de preocupação saudável de cuidar-se para manter a qualidade de vida, a necessidade imperiosa de manter a juventude por meio de procedimentos cirúrgicos repetidos, que tentam desmentir a passagem do tempo e o envelhecimento. Todo exagero focado no corpo visa preencher um vazio existencial, típico da condição narcisita do sujeito pós-moderno, alienado de seu próprio desejo e de seu próprio sentir, obrigado a adaptar-se ao Outro ou às regras da sociedade de consumo. As condições alienantes denunciam que padecemos da falta de limite, da ausência de alguém que diga NÃO, que imponha ordem, que diga: até aqui podemos – além daqui não podemos, sob pena de cavarmos nossa própria destruição ou abolição da subjetividade. Outro fenômeno assustador do mundo atual é o acréscimo de incidência de pedofilia, um tipo de perversão que diariamente ocupa os meios de comunicação de diversos países, disseminada por várias redes, na internet. A anulação paterna é um dos fatores determinantes para desencadear a pedofilia. Um pedófilo é o sujeito que ficou detido no narcisismo da infância e precisa de parceiros infantis para se identificar.
O pai é o operador simbólico da alteridade e do limite, rompendo a relação exclusiva com a mãe. A instalação do pai simbólico vai coincidir com a repressão da sexualidade, em prol do desenvolvimento da cultura.
Na menina ou no menino, o primeiro objeto de amor é a mãe, mas enquanto o menino já nasce vinculado ao objeto heterossexual, é obrigado a abandoná-la, porque verifica a presença do pai e o teme e também pelo amor ao pai, identifica-se com ele. Na menina, há todo um movimento mais complexo: pela fantasia de não ser completa, por se sentir em desvantagem, abandona o vínculo ressentida com a mãe e volta-se para o pai, na busca de alguém que a complete. Destacamos a importância da aprovação do pai à menina, de valorização de seu sexo, para que ela possa construir uma identidade de gênero adequada, isto é, identificar-se com a mãe, com os atributos da feminilidade para poder desejar construir, no futuro, um vínculo com parceiro, escolhido à semelhança do pai.
A função paterna é, desse modo, indispensável para a resolução dessas etapas do conflito, o que Freud chamou de Complexo de Édipo, triangulação que determinará a identidade de gênero em ambos os sexos. A interdição, que é básica na estruturação edípica, indica, não só a circulação do desejo entre pais e filhos, mas, principalmente, que o objeto sexual deve ser procurado fora do ambiente familiar.
É na medida em que a mãe se afasta que a criança começa a simbolizar, até para poder chamá-la. Nas idas e vindas da mãe, surge a capacidade simbólica e a linguagem, elaborando a falta da mãe. A lei da interdição com os elementos de parentesco, exercida pela função paterna, deve ser internalizada, inscrevendo a alteridade, a díferença e a identidade sexual, ao mesmo tempo em que forma o laço social e a cultura. O valor conceitual do mito freudiano foi o de demonstrar a importância do pai como função determinante da passagem do homem da natureza à cultura.
Na sociedade pós-moderna, há cada vez menos o papel do pai como limitador, criando assim indivíduos que fogem do controle. O pai agressivo e violento pode causar tantos danos ao filho quanto o pai omisso, porque em ambos os casos há falta da função paterna que é dar limite, mas também dar amor e cuidado. Enquanto o pai violento atemoriza demais, o pai omisso passa para a criança a sensação de abandono e rejeição.
Contudo, a função paterna não depende do genitor, a noção de pai instala-se como um operador simbólico, independente do pai encarnado, ou seja, a função paterna pode ser exercida pelo governo, pelo juiz, ao determinar a lei, nas famílias nas quais o pai está ausente.
Por outro lado, é comum estar o pai fisicamente presente na família, mas impossibilitado ou sem interesse em exercer a função paterna. Assim, todo o poder é exercido pela mulher, na condição de “fálica’, que se considera “dona dos filhos”, desvalorizando o homem e afastando-o da prole. Nas condições em que há rejeição inconsciente do significante paterno, diferentes patologias de maior ou menor gravidade podem ocorrer, desde os quadros psicóticos, distúrbios bordeline, caracteropatias e perversões.
No mundo atual globalizado, reformulam-se as referências familiares e sociais, de modo a abolir a autoridade e eliminar as diferenças. O decréscimo da função paterna é fenômeno inquestionável em nossos dias. A cultura pós-moderna rejeita o que não é semelhante. Nas famílias, crianças tantam dominar seus pais e estes não conseguem colocar-lhes limites. Nas escolas, professores são agredidos por seus alunos, que contestam as normas disciplinares, não raro apoiado pelos pais. Há um favorecimento da violência e a rivalidade sem limite, ao tentar apagar as diferenças impositivamente.
É o descrédito na ética do limite, advinda da função paterna, a falência absoluta do Estado, que deveriam ocupar esse lugar da lei efetiva na proteção de cidadãos favorecendo uma sociedade doente, órfã de valores importantes para a construção de um indivíduo saudável, pleno e feliz.