
A ausência da figura paterna na vida da criança pode ser responsável por boa parte dos casos de violência juvenil no País. Pesquisas apontam que cerca da metade dos jovens infratores não tem contato com os pais.
Por Rodrigo Gallo, Revista Sociologia, Ciência e Vida, pág 18, Ano 1 – número 10.
O número de menores infratores internados em instituições socioeducativas de todo o Brasil cresceu 28% entre 2002 e 2006, passando de 12.051 para 15.426 em quatro anos. Especialistas parecem já ter encontrado uma possível resposta para o aumento do total de criminosos com menos de 18 anos: a ausência da figura paterna. Uma pesquisa da Fundação Casa (antiga Febem) de São Paulo apontou que mais da metade dos internos viviam apenas com a mãe. Essa é uma situação muito semelhante à do resto do país. Sociólogos, psicólogos e o próprio governo admitem que uma das formas mais eficientes para combater à violência praticada por jovens é criar campannhas de planejamento famliar associadas a melhores nas políticas de educação e, desta forma, minimizar a delinquência nesta faixa etária.
Além disso, os especialistas apontam que o aumentam no número de menores infratores pode ser um reflexo tardio de mudanças ocorridas no comportamento sexual dos brasileiros nas últimas décadas – resultando na criação de milhares de filhos apenas pela mãe. A liberdade vivida pelas pessoas, principalmente a partir de 1960, inicialmente sob influência do movimento hippie norte-americano, resultou no nascimento de milhares de crianças criadas por mães solteiras ou que acabaram sendo entregues à adoção – o afastamento do pai nestas relações familiares pode ter sido o responsável pelo surgimento de alguns casos de violência.
Sem o suporte de uma família com a participação e orientação paterna efetiva – muitos desses jovens acabaram marginalizados. Estimativas apontam que 60% dos pais jovens, que tiveram filhos durante a adolescência, acabaram se separando após um ano de relacionamento. Isso representa um volume de 400 mil crianças envolvidas em casos de separação todos os anos, embora muitos destes pais nunca tenham se casado oficialmente. O número pode ser pequeno se comparado às estatísticas dos Estados Unidos, onde um milhão de jovens são afetados pela separação dos pais anualmente. Mas ainda há uma situação preocupante. Com o passar dos anos, esse quadro se agravou de forma preocupante e culminou na superlotação das unidades da Febem em todo o País, principalmente nas grande s cidades brasileiras, como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
Para muitos estudiosos, o problema do menor com pai ausente pode ser bem mais grave do que aparenta. Para o presidente da Organização Não-Governamental Brasil Sem Grades, a própria sociedade tem fechado os olhos para essa questão, que atingiu um nível sustentável. Há alguns anos a entidade vem analisando o aumento da violência, principalmente com o envolvimento de jovens, e constatou que realmente há uma ligação muito próxima entre o crescimento das internações nas unidades da Febem e o nascimento de crianças sem contato com a figura paterna. Esse cenário só se complica com o passar do tempo e, hoje, é um grave problema social que deve ser combatido com campanhas eficientes de paternidade responsável.
A teoria do presidente da ONG parece realmente certa. De acordo com a Fundação Casa de SP, 51% dos menores infratores do Estado conviviam apenas com a mãe, enquanto 7% moravam o pai, 23% com ambos e outros 19% sem pai ou mãe, conforme apontou a pesquisa divulgada em maio de 2006. Essa constatação reforça a tese de que a ausência de pai realmente desestrutura psicologicamente muitas crianças e adolescentes. Em consequência disso, milhares de jovens acabam chegando ao caminho do crime. “A função paterna está muito ligada à lei. A mãe tem um papel mais próximo de dar carinho e acolhimento, então , cabe ao pai mostrar os limites à criança desde pequena”, justifica a psicóloga Magdalena Ramos. “Sobrecarregada, a mãe não consegue assumir as duas funções e, sem o cumprimento da função paterna, a criança pode apresentar problemas mais sérios no futuro”, alerta.
Porém, cerca de um quarto das familias são mantidas apenas pelas mães, que são obrigadas a se desdobrar para suprir a falta do pai em casa. Embora, muitas dessas mulheres consigam dar uma boa educação aos filhos sozinhas, é muito difícil cumprir as duas funções em período integral. O casal deve dividir a função dos filhos para nenhum dos dois ficar com obrigações demais. Sozinha, a mulher consegue educar a criança, mas é preciso o dobro de dedicação.
O problema também está relacionado à falta de condições por parte da mãe de sustentar e vigiar a criança sozinha, em meio a tantos obstáculos financeiros. Por ter uma renda mensal baixa, a mãe acaba sendo obrigada a mudar de casa frenquentemente, pois enfrenta dificuldades para conseguir pagar o aluguel, e os filhos menores são os pontos mais frágeis na etapa de adaptação ao espaço. Na pressão para ser aceito no novo grupo, o jovem acaba aceitando fazer coisas que normalmente não aceitaria, como consumir drogas ou praticar delitos.
Novamente, a ausência do pai pode ser umas das explicações para o ingresso precoce na criminalidade. Em muitos casos, a criança não se relaciona como pai porque ele está cumprindo pena em alguma penitenciária. Isso causa um impacto muito negativo nesse jovem, porque a figura do pai sempre acaba servindo como uma espécie de modelo.
O fator socioeconômico também é apontado como um dos problemas causados pela ausência do pai em casa. As estimativas referentes a diversos estados brasileiros mostram que pelo menos 30% dos menores infratores se consideram muito pobres e alegam que praticavam crimes para ajudar a mãe e os irmãos. Contudo, isso não exclui a participação de jovens abastados nas estatísticas de violência – sobretudo crimes relacionados ao consumo de drogas. Em algumas localidades, como São Paulo, o número de jovens criminosos de classe média também chegam perto dos 30% indicando quase um desequilíbrio no perfil desses adolescentes em relação aos de classe menos favorecida. Contudo, a classe social é um fator importante na análise do mapa de criminalidade, mas não é o único fator determinante para a entrada de jovens no mundo do crime, pois, afinal, os casos de violência também chegam em bairros nobres e menos afastados das periferias. O que falta é a criação de políticas públicas para melhorar a educação das crianças e adolescentes, mas isso não deve ser feito apenas dentro das salas de aula. O importante é pensar a questão de forma mais estrutural e investir na formação do caráter desses adolescentes, por meio de programas sociais. Se não há nenhum pai biológico, alguém deve assumir essa função, como um padrasto ou mesmo um tipo mais próxio. O segredo é deixar a criança sem referência materna.