As famílias alegam que, se cometem exageros, é por causa do stress e da correria. Mas os especialistas alertam que gritos, discursos críticos e profecias negativas têm um efeito devastador sobre as crianças e provocam até distúrbios psicológicos.
Por: PATRÍCIA ZAIDAN, GIEDRE MOURA E FERNANDA QUINTA

Em inúmeras casas, o dia começa assim: as crianças demoram para acordar, depois se atrasam no banheiro e enrolam na mesa do café. Em cada etapa desse roteiro, a mãe vai elevando o tom de voz. Até que, quando os filhos entram no carro, ela nota que não pentearam os cabelos. Aí, atrasada para o trabalho, ela berra. À noite tem nova sessão por causa da toalha molhada em cima da cama, do computador ligado até tarde… Muitos pais não percebem, mas educam à base de brados. O futuro, nesses casos, não é muito promissor. Um grito entra feito agulha. E fica. Assim como tapas e puxões de orelha na infância podem formar um adulto violento, a intimidação também produz distúrbios psicológicos. É tão prejudicial quanto a agressão física. A criança tende a resolver os impasses sempre berrando. Mais tarde, terá dificuldade para se expressar de forma equilibrada e será intolerante no trabalho, nas relações afetivas e sociais. Ou cairá no extremo oposto, no silêncio e na submissão.
Alessandra Dutra, mestra em psicologia social pela PUC de São Paulo, lembra o caso de uma paciente de 42 anos, empresária bem-sucedida, que não conseguia se realizar em envolvimentos amorosos. O desconforto diante dos homens teve origem num episódio que vivera aos 4 anos. Ela brincava com um carrinho enquanto o pai assistia a um telejornal. Ao passar na frente da TV, ouviu apenas uma palavra: “Saia”. A voz soou tão alta, rude e ameaçadora que a garota fez xixi ali mesmo. “Um grito pode provocar um trauma leve, moderado ou severo”, afirma a psicóloga. A empresária percebeu na terapia que a cena da infância havia causado dupla humilhação. Ao ouvir a repreensão desmedida, acreditou ter cometido um erro irreparável. Além disso, perdeu o controle e urinou na sala. Veio daí a dificuldade, de ouvir “não” por parte dos homens. Para evitar reações como a do pai, a empresária se mostrava submissa, temendo desagradar.
Para ver quanto os filhos se incomodam com a gritaria dos pais, basta dar um passeio pelo Orkut. Só a comunidade “Eu odeio quando minha mãe grita” tem 12 mil cadastrados, a maioria adolescentes. Em coro, eles reclamam: “Minha mãe não fala, só berra”. Mariana P., 17 anos, desabafa: “Nessas horas, me dá vontade de sumir. Já não sei mais o motivo. Antes era porque eu tinha de voltar cedo para casa. Agora, que não tenho saído, ela continua urrando sem parar, não entendo: TPM não pode ser, porque ela grita todo santo dia”.
FALSAS VERDADES
Para ferir, a frase não precisa ser dita em tom de voz elevado ou ter um conteúdo pesado. O que conta é a mensagem e a insistência com que ela é reprisada. Irineu Miano Júnior, psicólogo e diretor da escola Crianças em Convívio Tia Ana, em Itatiba (SP), compara a criança a uma folha de papel em branco. “O que os pais colocarem nesse papel será a verdade absoluta.” A razão é simples: a criança, até por volta dos 6 anos, vê o mundo pela ótica dos pais. As mensagens que transmitem são a base para ela construir a própria convicção. Miano Júnior nota que as famílias tendem a educar apontando os aspectos negativos. Se uma pessoa escuta, desde cedo, que ela não faz nada direito, acaba se sentindo incapaz de tomar decisões sozinha. Frases como “Você só tira notas baixas”, “É incompetente” e “Não será nada na vida” levam a criança a acreditar que ela está fadada ao fracasso. O diretor aconselha os adultos a repensarem as expressões pejorativas e as frases de efeito devastador que deixam escapar. “Elas têm muita repercussão”, afirma. Tamara Santos Cruz, 12 anos, já incorporou uma característica que a sociedade despreza: a lentidão. “Sou mesmo meio lerda, faço as coisas muito mais devagar que os meus irmãos. Em casa, meu apelido era tartaruga.”
Algumas crianças se esforçam para desfazer os estigmas e superar as dificuldades supervalorizadas pelos pais. Se não conseguem, arrastam o rancor para a vida adulta. O diretor de cinema Woody Allen é um crítico desse modelo de educação. Seus filmes são pródigos em citações sobre estragos causados pelas “verdades” que os pais incutem nos filhos. Em NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA, Allen lembra: “Sol faz mal. Tudo que nossos pais disseram que era bom é ruim. Sol, carne vermelha, faculdade…”
VEXAME TOTAL
O adolescente tem mais repertório para reagir contra aquilo que ouve. Mesmo assim, sofre. Mara S., 14 anos, anda aborrecida com a mãe. “Não sei por quê, mas ela detesta as minhas amigas. Toda vez que volto de um encontro com as meninas, diz: ‘Você vai acabar vagabunda como elas’. Tem coisa pior do que ouvir isso da própria mãe?” A situação complica quando Mara vê a intimidade escancarada em público: “Menstruei pela primeira vez e minha mãe contou às minhas tias num almoço de família. Fiquei uma semana sem dirigir uma palavra a ela”. Segundo Miano Júnior, o que parece bobagem para os pais pode ser muito importante para os filhos. “Uma exposição assim provoca o afastamento e põe em risco o diálogo.” Com a quebra da relação de confiança, o filho deixa de se abrir e dividir alegrias. Há famílias que usam a platéia para dar lições. Acreditam que levar o filho ao vexame pode ser pedagógico. Não é raro encontrar mães que contam aos coleguinhas do filho de 5 anos que ele faz xixi na cama. Pais de adolescentes adoram entregar, em público, que o garoto deu uma pisada na bola. Não percebem, mas cutucam o brio, provocam a vergonha. Os filhos não gostam de ser expostos nem mesmo no triunfo. A revelação de que receberam medalha no futebol ou tiraram 10 soa como um mico impagável.
CRÍTICAS PESADAS
Depois de uma briga com a mãe, Ágata Moraes, 17 anos, saiu de casa pensando em nunca mais voltar. “Ela me critica o tempo todo por causa dos estudos, da bagunça do quarto, porque não ajudo a cuidar da minha irmã. Também sei dizer grosserias. Soltei uma e fui embora.” A garota passou a tarde inteira fora e concluiu que, embora a mãe tivesse razão em muitas coisas, tinha ido longe demais partindo para o insulto. A principal queixa dos adolescentes é que a crítica nunca vem sozinha: os pais firmam uma sentença antes de dar direito de defesa. Ágata tinha explicações para o desleixo em casa, mas não pôde conversar sobre o assunto.
Os pais alegam que o stress e a correria são os responsáveis pelos exageros que cometem. Ao chegar tarde do trabalho, sentem-se na obrigação de corrigir desvios de rota dos filhos. Agem, ainda, sob a tensão do mundo moderno, que expõe as crianças a inúmeros perigos. Os especialistas em comportamento compreendem as justificativas, mas alertam: não há processo da educação que se desenvolva numa torre de Babel. Nos anos 60, quando os castigos corporais foram condenados, a palavra ganhou força. A discussão tornou-se o foro dos entendimentos. Mas está desgastada e tem de ser reaprendida. “O ponto de partida para retomar o diálogo é a paciência”, diz Silvia Martinelli Derroualle, psicanalista especializada no atendimento de crianças e adolescentes. Para ela, uma comunicação menos agressiva só se estabelece quando os envolvidos entendem que estão irritados e que precisam se controlar antes de falar. “Se comparada à palmada, a palavra é muito mais difícil de segurar. No momento em que os pais perdem o controle, perdem também a razão”, analisa. Isso não significa que devem suspender as broncas. “Pelo contrário, a bronca justa tem o seu lugar”, afirma a professora de psicologia da PUC Isabel Kahn. “É função dos pais repreender, criar regras, negociar e até reconhecer o papel saudável da briga”, diz. Só não podem sair gritando e chutando o balde. No lugar do destempero, ela recomenda sinceridade para confessar: “Estou muito nervoso, vamos conversar mais tarde”. Se, depois de compreender tudo isso, os pais decidirem modular o tom da voz, um lembrete: o corpo também fala. E as crianças entendem essa linguagem. A professora de comunicação e semiótica da PUC Ana Alves Oliveira diz que não adianta apenas domar a língua. “Na intenção agressiva, a entonação, o olhar, os gestos e a postura corporal vão se revelar hostis. Se o sentimento é a raiva e as palavras são doces, o corpo irá mostrar a mentira.”
Eu fiquei doente
Este depoimento, de uma jornalista que prefere se manter no anonimato, mostra até que ponto a ironia e a insensibilidade familiares podem detonar a auto-estima de uma garota
Quando eu tinha 12 anos, meu pai, já separado da minha mãe, começou a namorar uma modelo de 17 anos, magrinha e bonita. Ele elogiava a amada o tempo inteiro. Eu também queria receber elogios, mas ele só falava nela. Passei a achar que só gente assim, enxuta, podia ter qualidades. Para piorar, sempre que ele viajava, trazia de presente roupas de números bem maiores que o meu. Eu ficava péssima. De tanto ouvi-lo falar, me convenci de que estava mesmo gorda, um monstro. Resolvi regime, um atrás do outro. Mas não conseguia perder peso e acabava comendo mais. Aos engordei 12 quilos. Minha mãe passou a me chamar de batatinha. Fiquei ainda mais. Tentava emagrecer, fazia jejum. Comecei a provocar o vômito. Com 16 anos, tomava laxante inibidores de apetite. Um ano depois, pesava apenas 45 quilos. Bem mais tarde, procurei tratamento, e hoje, aos 24 anos, a bulimia está controlada. Mas não digo que estou curada.
http://claudia.abril.com.br/materias/2258/?pagina4&sh=34&cnl=48&sc=