A infância é o tempo de explorar o mundo ao vivo e em cores, não só por meio da TV ou do computador. Os especialistas batem cada vez mais nessa tecla e explicam por que brincar faz toda diferença para a saúde física, mental e emocional dos pequenos.
Por Flávia Pinho, Revista Cláudia, outubro de 2005.

Se você acha que as brincadeiras do passado não fazem sentido em pleno século 21, é hora de repensar o assunto. Em diversos países, inclusive no Brasil, estudiosos se debruçam sobre as mudanças radicais que a rotina dos pequenos sofreu nas últimas décadas – e já admitem que hábitos colocados em segundo plano, como correr, jogar bolinhos de areia, são muito mais importantes para a saúde física, mental e emocional do que se podia supor. “Brincar é uma necessidade básica, como dormir e comer, e deve ser a atividade primorcial até os 6 anos”, afirma a assistente social, Marilene Martins, sócio-fundadora da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar. A entidade não é a única a empunhar a bandeira. “Para se tornar um adulto equilibrado e feliz, a criança precisa viver intensamente a infância. Os pais não podem se preocupar apenas com a inteligência, com o rendimento escolar, com o futuro profissional”, alerta a pedagoga Nylse Cunha, autora de vários livros sobre o tema e presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas. São posições que, à primeira vista, precem óbvias. Afinal, quem vai impedir, em sã consicência, que o filho brinque? A questão, ressaltam os especialistas, é o que se entende hoje por brincadeira- em geral, apenas jogos eletrônicos e televisão.
“Essa diversão, que está na ponta dos dedos, é puramente mental. Acontece que o ser humano não muda tanto radicalmente de uma geração para outra. A criançada ainda precisa correr, pendurar, passar por baixo e por cima, se mexer”, diz o psiquiatra Içami Tiba. O pesquisador britânico John Richer, responsável pelo departamento de psicologia pediátrica em Oxford, na Inglaterra vai além. Ele chama a atenção para a ausência de contato da meninada com a realidade. “O medo da violência afastou as crianças das praças, fenômeno que se repete em muitos países. As que saem de casa brincam em playgrounds que, de tão seguros, são chatos. Não oferecem estímulos e ainda impedem que elas administrem riscos. Aprender sobre o mundo real implica tocá-lo, explorá-lo”, explica John.
A infância confinada causa prejuízos em diversas áreas do desenvolvimento. Na escola Anjo da Guarda, em Curitiba, a diretora pedagógica se preocupa com o que constata diariamente. “Os alunos são bem-informados, sabem usar qualquer aparelho e compreendem um manual como ninguém. Em compensação, mal começam a fazer uma atividade e querm pular para a seguinte. O poder de concentração foi seriamente afetado.” Em poucos anos, o aprendizado sofre consequências, alerta a psicóloga Lorena Busquin, do Colégio Miraflores, no RJ. “A criança que não experimentou o próprio corpo nos primeiros anos de vida, que não correu, não pulou, fica com déficits no desenvolvimento motor. Lá na frente, eles interferem na coordenação motora fina, fundamental para a alfabetização.” O mesmo se repete no campo emocional, “quem não brinca deixa de desenvolver áreas do cérebro responsáveis pela afetividade e sociabilidade. Terá dificuldade para se relacionar e não saberá lidar com as emoções, deficiências que só se recuperam com muita terapia. Reflexos de outro tipo são verificados nos consultórios médicos. Os países desenvolvidos são vítimas de uma verdadeira epidemia de doenças alérgicas, causadas em parte pela falta de exposição a elementos – quando não se entra em contato com a boa e velha “vitamina S”, de sujeira, o sistema imunológico não amadurece plenamente. “Os ambientes estão limpos demai”s. A sujeira do solo contém incontáveis microorganismos essenciais à vida.” O fenômeno também chegou ao Brasil, garante a imunologista Ana Paula Moschione de São Paulo. “Cerca de 20% das crianças já apresentam doenças alérgicas, um número assustador. Entre as causas, está o aumento das atividades em locais fechados. Passamos mais de 90% em ambientes repletos de ácaros.”
Atribuir esse confinamento às lomitações da vida moderna, colocando toda a culpa na violência urbana e nos apartamentos pequenos, é uma opinião simplista, pois estamos contaminados pelo estilo de vida eletrônico. Os games substituem as brincadeiras – e a falta de espaço, é o de menos. Para agravar, os pais se encantam ao constatar que os filhos dominam o controle remoto, o computador e as mais complexas engenhocas e acabam achando que já não se interessariam por distrações mais simples. Um equívoco, pois a amarelinha ainda faz muito sucesso! Podemos ver crianças de 1 ano e meio se divertindo em pequenos espaços de terra batida, sobreado de árvores. Esse aprendizado é cultural, precisamos incentivá-lo.
O intervalo entre as aulas também é hora de aprender a brincar. As meninas da faixa etária entre 10 e 13 anos, se encantam com as casinhas de boneca, mas tem vergonha de brincar. PAra deixá-las a vontade, é interessante entrar na brincadeira com elas. Isso acontece porque nem as crianças conseguem distinguir o que realmente gostam do que é imposto. Elas estão espelhando a pressão da mídia e da família. Como não tem oportunidade de descobrir seus sonhos genuínos e expressá-los, refletem o que já foi projetado.
A interferência do adulto é eVIdente em loja de brinquedos, pois se confere o valor aos produtos consciente ou inconscientemente. E não raro, nos surpreendemos ao ver que a criança se diverte mais com a caixa de papelão. Quanto mais pronto o brinquedo, mais aborrecido.
A TV PODE SER UMA ALIADA NA EDUCAÇÃO, BASTA USÁ-LA COM INTELIGÊNCIA
Não dá pra fechar os olhos diante da realidade: brincar é fundamental, mas a TV e o computador já são parte da infância – e em caráter definitivo. Os números comprovam, (segundo pesquisa da MacCann-Erickson) 63% das crianças das classes A/B, com menos de 12 anos, tem TV no próprio quarto e passam 4 horas diárias diante do aparelho. A boa notícia é que a telinha só assume o papel de vilã da história se voc6e permitir. A TV e o vídeo game são inevitáveis, o progresso está aí. Cabe aos pais interagir, selecionar a programação. O conteúdo deve respeitar a faixa etária e a rotina da criança, além de não tratá-la como mera consumidora. Quem abre mão dessa tarefa, deixa a criança na mira da artilharia pesada: “a maior parte da programação infantil é idealizada sob o prisma do consumo. O pequeno telespectador se torna consumidor não só de brinquedos e biscoitos, mas de um projeto de vida pobre. Ele cresce acreditando que a imagem é o que “importa”.
Exposta desde cedo a personagens e tramas cada vez mais sensuais, a criança tende a abandonar os brinquedos precocemente. Com cerca de 9 anos, já se considera pré-adolescente e se volta para outros interesses. A turma de 10, 12 anos, só quer saber de carros, viagens, computação, gente famosa, tecnologia e moda. O fenômeno se reflete na indústria de brinquedos. “Nosso público sofre uma forte pressão social para se tornar adulto antes do tempo, fazendo com que o mercado encolha. É assim no mundo inteiro, mas aqui no Brasil, a erotização nos meios de comunicação acelera ainda mais o processo”, atesta Aires Fernandes, diretor de marketing da Estrela. Separar o joio do trigo é mais simples do que parece. Comece observando os valores que permeiam as séries e desenhos animados a que seu filho assiste. Preconceitos de qualquer natureza não devem ser tolerados. Programas que destacam atitudes solidárias e harmoniosas são recomendadas, mas convém evitar aqueles que pintam o mundo com cores tênues demais. É importante mostrar que os conflitos existem e podem ser resolvidos com tranquilidade. Personagens bonzinhos o tempo todo são irreais.
O vocabulário é outro item a considerar, como a criançada costuma sair pelas ruas repetindo os bordões que ouve na TV, marca ponto o programa que aproveita a deixa e apresenta palavras novas. Não pense contudo, que conteúdo educativo deve ser chato. Nada pode ser técnico, científico, formal, como uma aula tradicional. Mais do que informar, a TV tem de despertar curiosidade. O mesmo vale para o repertório musical, as canções que seu filho escuta são muito mais do que pura diversão e interferem de verdade no desenvolvimento dele, especialmente nos primeiros cinco anos de vida.
Enfim, o universo infantil é riquíssimo e não pode ser simplificado!


